Pedido de clemência

Image

Não quero mais lembrar

Sinto que vou ter que retirar

Alguma parte do meu cérebro

Da minha alma

Para parar de funcionar

O caixão da memória

A lista das lembranças

O descarrilhamento de emoções

Não quero mais pensar

No passado

Nos meus erros

Na minha antiga felicidade

No que eu deixei de fazer

E no que infelizmente fiz

Quero me petrificar

Por plenos momentos

Fazendo com que o tempo

Deixe de passar

Ainda não fiz um plano

Uma meta

Nem inventei uma solução

Para o que for

O que foi

Ou o que será

Mas aceito sugestões

Sem decepções

Pelo que virá

 

Poema errado

Image

Sinto que estou dormindo de trás pra frente

Na outra beirada da cama

Sem apoio

Ou travesseiro

Apenas caindo

Tentando ter mais outra noite de sono

Apenas esperando a hora de acordar

Sinto que estou escrevendo com a mão esquerda

Em linhas tortas

Sem luz

Ou estrelas

Para me guiar

Do lado errado da folha

Apenas esperando

O texto certo aparecer

A ideia me ocorrer

Para finalmente começar a escrever

A devida história

Do meu começo feliz

Sinto que estou rasgando calendários

Quebrando cronômetros

Dando a louca no tempo

Com o tempo

Apenas esperando que ele pare

Para eu pensar

Recomeçar

Para finalmente fazer dar certo

As coisas certas

Chronique de l’adolescence 3- Nuit d’amour

ImageÓ noite, torna-me corpo e alma, parte do teu corpo, que eu me perca em ser mera treva

e me torne noite também, sem sonhos que sejam estrelas em mim,

nem sol esperado que ilumine o futuro -Bernardo Soares

 

Eu queria ser uma sonâmbula. Não, uma criatura noturna, como todas aquelas que sempre admirei.

Trocaria os dias barulhentos e sinuosos pelas noites tranquilas e silenciosas, a poluição pelo céu negro puro, todas as pessoas desagradáveis e barulhentas pela solidão das ruas, uma mistura de calmaria, risadas, poesia e álcool no ar.

Dizem que quem gosta tanto de noite são os boêmios, fanfarreiros, pessoas deslocadas, translocadas totalmente, românticos, pessoas julgadas pela sociedade.

E então eu, que tanto julguei, agora cerrei meus dentes e quero me tornar, adentrar no mundo dessas pessoas que querem e sabem viver plenamente como os malandros poetas do passado com seus violões e cantorias à luz do luar.

Porque agora percebo que quero evitar tudo o que o dia me traz: os falsetes, misérias, decepções e muito mais. Coisas ardidas pela luz do sol.

Nesse momento, só quero e posso trabalhar, sentir, viver à luz das estrelas, com seu mistério, pois realmente prefiro ficar sozinha, no escuro, a pensar, conversando com astros e seres mitológicos a passar mais um dia exposta na explícita cidade de papel com suas pessoas papel manteiga.

Vou arrancar minhas folhas dos cadernos industrializados e adentrar meus valores, meus sonhos tão trancados, esquecendo de tudo e todos que reprimem para viver a liberdade.

Pelo menos até o sol nascer e a próxima noite se aproximar…

 

Chronique de l’adolescence 2- Le amour

Image

Amar é entregar-se. Quanto maior a entrega, maior é o amor

Mas a entrega total também entrega a consciência do outro

O amor maior é por isso a morte, ou o esquecimento, ou a renúncia. -Bernardo Soares

 

Eu gosto de falar que nunca amei. Ninguém. Jamais.

Renuncio todas aquelas memórias de uma pequena eu (irreconhecível no momento), deitada na cama, abraçada com a minha mãe naquelas belas cenas clichês da infância, daquelas guerras simples de cada uma reafirmando que sempre SEMPRE amará mais que a outra.

Também renuncio todos os meus 14 anos iniciais (até mais) de vida, em que eu fui completamente verdadeiramente uma devota ao meu pai. Vivia, respirava e morria para ter sua admiração e suas poucas palavras amorosas citadas em raros cartões de aniversário e glorificações públicas ou privadas sobre mim.

Mas prefiro esquecer tudo isso também.

Sem contar todas as minhas paixonites, paixões e os três (talvez quatro..) garotos que se revisaram incontáveis vezes no cargo de “meu primeiro amor”. E, devo admitir (com fervor) que todos, até mesmo aqueles que nem citei ou pensei em incluir, foram e são uns completos idiotas retardados (em todos os sentidos e meios possíveis de ser assim).

Então, com o passar dos anos, eu fui enxergando cada verdade escondida por carinhos e olhares apaixonados além de começar a entender tudo (tudo mesmo) o que se passava ao meu redor com mais clareza.

Com o passar dos anos, eu fui desapontando as pessoas e elas, reciprocamente, me decepcionaram também (da maneira mais drástica possível).

A verdade me mostrou as coisas como elas verdadeiramente eram, o que massacrou todo o meu amor e os sentimentos que um tive tive por essas e tantas outras pessoas.

No final, talvez, o amor apenas me deixou fraca e cega.

Desta vez, se eu for capaz de recomeçar tudo, quero tudo da forma mais verdadeira possível, sem mentiras, desculpas, falsidades e com todos os erros e defeitos à mostra (incluindo os meus..)

Chronique de l’adolescence 1- Realidade quebra-cabeça

Image

E então, sem perceber, eu mesma montei a minha cidade. Meu mundo. Com minhas próprias regras, meus próprios personagens, alguns cidadãos quaisquer e eu, em uma realidade diferente, mais bonita, menos imaginária e mais próxima da realidade ideal, com minha própria e diferente história para aturar.

Mas, não muito depois, eu acordei de todo esse pensamento infantil.

Uma hora todos temos que voltar para esse mundo, em que nossa alma decidiu ficar, em que viajar para outro continente leva dias, horas infinitas e desgastantes, em que nem tudo é possível e acreditar não parece mais ser o suficiente para nada nem ninguém, sempre é necessário mais: ter mais, estar mais, SER mais.

Infelizmente, alguma hora ou minuto, todos nós temos que voltar e nos restabelecer nesse ordinário lugar em que você nem sempre está aonde deveria, aonde nem tudo é como deveria ser.

Me encontrei em uma realidade em que todos os prédios não feitos de papel, mas são encaixados como quebra-cabeças 3D com um manual defeituoso, com uma péssima qualidade do produto em si.

Me encontrei em uma realidade tortuosa em que não são os prédios que são feitos de papel. AS PESSOAS QUE SÃO.Totalmente sem valor, cada vez mais agregadas a coisas sem sentido, sem causa, sem solução, pessoas tão frágeis como uma folha sulfite, tão vazias quanto o branco de suas páginas, sempre esperando para algo acontecer, um sinal aparecer e então… NADA ACONTECE.

Talvez tudo isso seja mais outra “laia” (ou como queira chamar) de adolescente: com revolta, drama e uma atitude ao mesmo tempo desistente e transformadora. Mas acho que já passei há muito tempo dessa fase.

Cheguei em um momento em que represento apenas um humano, como tantos outros 7 bilhões e trá lá lá, simplesmente cansada e triste com tudo.